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Estabelecido em 2007, em Dia Mundial de Conscientização do Autismo ocorre em 2 de abril. De acordo com o Ministério da Saúde, a intenção da data é difundir informações sobre o autismo e reduzir a discriminação e o preconceito que cercam as pessoas afetadas pelo transtorno.
A Tribuna entrevistou a psicóloga Imira Fonseca, que deu mais detalhes sobre o autismo e as formas como ele é diagnosticado.
O que é o autismo?
“É um transtorno do neurodesenvolvimento. Os sinais precisam aparecer desde a infância e vão permanecer até o fim da vida da pessoa. Estes sintomas são classificados em duas grandes áreas: de comunicação e interação social, havendo déficit nessa área; e em padrões repetitivos de comportamento. Necessariamente, é preciso cumprir os critérios diagnósticos pras duas áreas, para ter o diagnóstico de autismo”.
Existe alguma diferença entre autismo e espectro autista?
“Autismo e transtorno do espectro autista são a mesma coisa. Até a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), tínhamos o nome autismo. No DSM 5, essa nomenclatura mudou e passou a se chamar Transtorno do Espectro Autista (TEA), justamente porque foi percebido que há uma amplitude muito grande dentro do próprio diagnóstico. Por isso, atualmente, o nome mais utilizado é Transtorno do Espectro Autista”.
É de fácil diagnóstico?
“O autismo tem níveis de suporte 1, 2 e 3. O nível 1 seria a pessoa que exige menos suporte, de auxílio na realização de tarefas do cotidiano. E vai até o nível 3, que é com muito suporte. Dar um diagnóstico depende de vários fatores: da expertise da pessoa que dá o diagnóstico e dos sinais que o paciente apresenta. Geralmente, o diagnóstico é mais difícil em mulheres nível 1 de suporte, porque as mulheres tendem a mascarar os sintomas. Ou seja, em função das regras de socialização, as meninas são mais solicitadas socialmente a cumprirem determinadas tarefas. Elas vão se adequando mais ao ambiente. Isso custa que, algumas mulheres descobrem o diagnóstico já adultas e estão com sintomas de depressão ou transtornos alimentares, porque o custo de lidar com a sociedade, sem que as dificuldades sejam evidenciadas, é muito grande, a ponto de adoecer de outras formas”.
Pode ser confundido com outros transtornos de desenvolvimento?
“Temos alguns sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e do TEA em comum. E são dois transtornos que têm muitas comorbidades. Eles apresentam dificuldades em funções executivas, que são funções cognitivas que nós temos. No TDAH, há mais dificuldade de controle inibitório, por isso a impulsividade. No autismo, há mais dificuldade de flexibilidade”.
Há alguma característica que deve chamar a atenção das pessoas?
“Isso depende muito da faixa etária, mas de modo geral, uma rigidez muito grande. Então, as coisas têm que ser sempre do mesmo jeito, e muitas pessoas confundem isso, principalmente em crianças, com mimo. Crianças que não conseguem suportar alterações na rotina ou ficar em situações novas, podem ter TEA. Importante ressaltar o “podem”, porque não é uma característica que vai definir o diagnóstico”.
Muitos associam o autismo com o hiperfoco. Existe uma relação?
“O hiperfoco é um dos critérios diagnósticos para o autismo. O hiperfoco é um interesse muito acima do normal e traz prejuízo. A palavra “hiperfoco” caiu no senso comum, e as pessoas não sabem exatamente o que ela quer dizer, quando falamos em diagnóstico. Isso significa que todo autista precisa ter hiperfoco? Não, porque é apenas um critério. É possível que a pessoa não desenvolva ou, principalmente nas meninas, que o hiperfoco seja muito mais ajustado socialmente”.
Muitas pessoas acabam descobrindo que estão no espectro já adultas. Por que isso?
“Porque, antigamente, a ideia de diagnóstico olhava muito para os níveis de suporte 2 e 3. Existia outro diagnóstico, chamado Síndrome de Asperger, e as pessoas com essa síndrome passaram a integrar o nível 1. Então, há dois problemas relacionados ao diagnóstico tardio: essa divisão e a questão da atualização dos profissionais. Muitos profissionais ainda ficam presos a estereótipos, como “todo autista não olha no olho”, o que não é verdade. Então, as pessoas vão vivendo e, quando chegam ao psicólogo, por exemplo, com outros sofrimentos, como depressão, investigam e descobrem que têm TEA”.
Quais os principais tratamentos?
“Depende do nível de suporte. De modo geral, o autismo não tem remédio. Porém, se é uma pessoa com ansiedade, há o remédio para a ansiedade. Se é uma pessoa com um nível de suporte muito alto, que se agride, é passada uma medicação para trabalhar essa violência. A nível de terapia, que é um tratamento extremamente importante, porque a qualidade de vida, de uma pessoa com autismo, está relacionada a ter habilidades para exercer a própria vida. Temos vários tipos de terapia, que estão relacionadas a cada tipo de dificuldade de cada pessoa com autismo. É muito comum que autistas façam fonoaudióloga, porque boa parte das pessoas com TEA, principalmente crianças, tem dificuldade na fala. Muitas também vão precisar fazer acompanhamento com terapeuta ocupacional, porque têm muitas questões de dificuldades sensoriais, que vão afetar o funcionamento da vida.
Para o atendimento de pessoas com o nível de suporte 1, temos muitas evidências de funcionamento de terapias dentro do guarda-chuva da Terapia Cognitiva Comportamental e da Terapia de Aceitação e Compromisso. São essas terapias que chamamos de TCC ou Terapias Contextuais. Elas têm evidências de ajudarem bastante, em casos de pacientes com nível de suporte 1, que já têm uma linguagem bem desenvolvida. Em caso de nível 2 e 3, o que temos é o tratamento com a Análise Aplicada do Comportamento, que vai desenvolver habilidades, inclusive as sociais. São diversos tratamentos, mas cada um para cada caso específico”.
Antigamente, consideravam o autismo como "probleminha" ou "frescura". Qual a importância de entender o espectro, tanto para quem tem, quanto para a sociedade?
“Até hoje, as pessoas têm muita dificuldade em compreender o funcionamento humano. Em consequência disso, os transtornos relacionados. Ainda ficamos muito presos à uma visão muito biológica da coisa, de ir, fazer um exame, e é isso. Com os transtornos mentais, não há um exame que dê o diagnóstico. O diagnóstico é sempre clínico, ou seja, o profissional de saúde vai investigar os critérios e fechar o diagnóstico ou não. E esse é o problema, porque, com a falta de atualização de profissionais, há o reforço nas ideias de que é “frescura”, porque as pessoas ainda estão presas à uma visão de comportamento humano muito diferente da realidade.
A importância da conscientização é para diminuir o sofrimento, porque, se existe uma pessoa com limitações claras, e ela não consegue dar conta, ela sofre. Sofrendo, ela cria interpretações da vida sobre isso e sobre ela. Há um alto número de autistas, com nível 1 de suporte, que tiram a própria vida, porque as dificuldades são mais sutis perante as outras pessoas e, com a falta de diagnóstico, eles acabam atentando contra a própria vida. Então, quando entendemos que há um sofrimento ali, podemos agir para diminuí-lo. Para nós, enquanto sociedade, entender as limitações, os benefícios e que o contexto impacta demais, é fundamental para que tenhamos uma sociedade mais justa”.