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Adriana chegou cedo à Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte do Rio, com o número do protocolo em mãos e a esperança de voltar para casa com o celular que havia perdido para um assaltante, meses antes, no Centro da capital. “Ainda estou pagando o telefone, mas pelo menos ele voltou para mim. Foi um susto, uma perda, e agora um alívio”, disse ela, emocionada.
Ao lado de Adriana, Márcio também saiu com seu aparelho de volta nas mãos. Ele teve o celular furtado durante uma partida de futebol. A recuperação veio por meio de uma notificação da Polícia Civil, informando que o equipamento havia sido localizado. “Estava no trabalho quando recebi a mensagem. Na hora, fui conferir e comemorei. É uma ação de inteligência que a gente precisa parabenizar”, disse.
Os dois fazem parte do grupo de 1.400 pessoas que tiveram seus celulares devolvidos pela Polícia Civil nesta terça-feira (22), na primeira grande leva da Operação Rastreio. A ação, considerada a maior já realizada no estado para desarticular o esquema criminoso de roubo, furto, receptação e revenda de aparelhos móveis, teve devoluções em vários pontos do Rio.
A logística da operação distribuiu os aparelhos entre a Cidade da Polícia (cerca de 700 devoluções), delegacias da Baixada Fluminense (400 aparelhos) e unidades da Região Metropolitana e interior (300 celulares).
Em São Gonçalo, segundo a 74ª DP (Alcântara), foram 43 aparelhos devolvidos de um total de 56 recuperados na operação. Já em Niterói, a 76ª DP também iniciou as entregas, mas optou por não divulgar os números.
Alta de furtos e roubos motivou ação inédita
A ofensiva acontece em meio a uma escalada nos crimes envolvendo celulares em todo o estado. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), entre janeiro e maio de 2025, o Rio de Janeiro registrou 19.257 furtos de celulares, alta de 18% em relação ao mesmo período de 2024 (16.251). Já os roubos cresceram 30%, saltando de 8.379 para 10.879 ocorrências.
Os municípios de Niterói e São Gonçalo estão entre os que apresentam os aumentos mais preocupantes.
• Em Niterói, os furtos de celulares aumentaram 85%: foram 727 registros em 2025, contra 393 no mesmo período do ano anterior. Os roubos saltaram de 107 para 199 casos, um avanço de 86%.
• Em São Gonçalo, os furtos passaram de 237 para 354 (+49%), enquanto os roubos cresceram de 172 para 290 (+69%).
A gravidade dos números foi o gatilho para o lançamento da Operação Rastreio, em maio. De lá para cá, segundo a Polícia Civil, já foram presos mais de 270 suspeitos e cerca de 5 mil celulares foram recuperados. Muitos desses aparelhos ainda estão sendo periciados e cruzados com boletins de ocorrência para identificação dos donos legítimos.
“O celular é um bem essencial para o cidadão. Esta devolução simboliza muito mais que a entrega de um objeto: é a retomada da dignidade. E ainda estamos só no começo”, afirmou o secretário de Polícia Civil, delegado Felipe Curi.
Notificações e responsabilização por receptação
Parte do trabalho de recuperação também envolveu usuários que estavam de posse de celulares com restrição por furto ou roubo. Em junho, cerca de 3 mil pessoas foram notificadas e orientadas a entregar voluntariamente os aparelhos em até 72 horas. Aproximadamente mil atenderam ao chamado, evitando indiciamento por receptação.
Os demais que ignoraram o aviso já estão sendo alvo de inquéritos e podem responder criminalmente.
Devoluções em delegacias de bairro seguem em andamento
Em delegacias como a 74ª DP (São Gonçalo) e a 76ª DP (Niterói), as devoluções continuarão ao longo da semana. A entrega dos aparelhos é feita com agendamento prévio, e os proprietários são localizados a partir do cruzamento entre o número do IMEI, os registros de ocorrência e as bases de dados operacionais da polícia.
Segundo a Secretaria de Polícia Civil, a operação será contínua e permanente, com novas fases previstas nos próximos meses. A prioridade é fechar o cerco contra pontos de revenda de aparelhos irregulares e quebrar a engrenagem do mercado paralelo.
Aplicativos ajudam a checar se celular é roubado
Como parte das medidas de prevenção, o governo estadual lançou neste mês o aplicativo Celular Seguro RJ, que permite ao cidadão cadastrar o número do IMEI e consultar se o aparelho possui alguma restrição, como roubo, furto ou extravio. As informações são atualizadas em tempo real com base nos registros da própria Polícia Civil.
No âmbito federal, o Ministério da Justiça e Segurança Pública regulamentou o Cadastro Nacional de Celulares com Restrição (CNCR), que unifica as informações do Celular Seguro, do Cadastro de Estações Móveis Impedidas (CEMI) e da Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO).
“A pessoa tem o direito de saber se está comprando um celular legal. O CNCR é uma ferramenta para dar mais segurança ao consumidor”, afirmou Manoel Carlos de Almeida Neto, secretário-executivo do Ministério da Justiça.
A consulta pode ser feita de forma simples: basta baixar o app Celular Seguro (Android ou iOS), acessar a opção “Celulares com Restrição”, e digitar ou escanear o número do IMEI — que aparece ao digitar *#06# no teclado do celular.
Para milhares de vítimas, como Adriana e Márcio, a operação tem sido uma rara oportunidade de justiça. “A gente fica desacreditado, acha que nunca mais vai ver o celular. Quando me chamaram, parecia mentira. Agora sei que vale a pena confiar na polícia”, disse Adriana, sorrindo, enquanto segurava o celular nas mãos — desta vez, com alívio.